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Chinês fará “filme de gângster” em SP

Ambientado na Liberdade, longa de Lik-Wai aborda troca de comando em organização mafiosa; filmagens serão em 2007

Prisão do empresário chinês Law Kin Chong, em 2003, inspirou história,
que tem roteiro assinado pelo diretor e por Fernando Bonassi

O cineasta chinês Yu Lik-Wai no bairro da Liberdade, onde estuda
locações para filmar o longa “Plastic City”, a partir de outubro de
2007, com brasileiros no elenco

SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL

Nascido em Hong Kong em 1966, o cineasta Yu Lik-Wai “simplesmente não
sabia nada sobre a América do Sul” até 2003, quando veio pela primeira
vez a São Paulo.

“Imediatamente quis filmar aqui”, contou Lik-Wai à Folha, na sexta
passada, quando estava de volta a São Paulo, preparando o roteiro de
“Plastic City” (cidade de plástico), seu terceiro longa, que ele
filmará a partir de outubro de 2007, na cidade que considera “dez
vezes mais louca e dez vezes mais caótica do que Hong Kong”.
A trama desse “filme de gângster”, como define o cineasta, será
ambientada no bairro oriental da Liberdade
. Foi lá que Lik-Wai leu, em
2003, as manchetes sobre a investigação policial em torno do
empresário chinês naturalizado brasileiro Law Kin Chong, acusado de
ser um dos maiores contrabandistas do país.
“As diversas camadas e as muitas contradições que encontrei nessa
cidade foram muito inspiradoras para um filme. São Paulo oferece um
pano de fundo adequado para uma história urbana moderna”, afirma o
diretor.

Surreal
A representação da cidade em “Plastic City”, diz Lik-Wai, “não será
realista”. “Será o meu ponto de vista sobre São Paulo. Vai ser algo
mais surrealista. As coisas serão mais loucas. Não será como numa
ficção científica, mas haverá coisas diferentes da São Paulo de
verdade.”
Por exemplo, a neve. Numa das cenas já arquitetadas pelo diretor em
parceria com o roteirista, escritor e colunista da Folha Fernando
Bonassi, a neve cai sobre a cidade.
A sugestão de inverno rigoroso acentua a atmosfera interna do
protagonista -Kirin é um jovem que sobreviveu ao abandono na infância
e se torna o número um na linha de sucessão de um veterano mafioso. A
ascensão de Kirin no mundo do crime não o livra, contudo, do
isolamento afetivo e de visões persecutórias.
Colaborador de Wong Kar-wai (”Amor à Flor da Pele”) e fotógrafo
constante de Jia Zhang-ke, vencedor do Festival de Veneza deste ano
com “Still Life”, Lik-Wai faz parte da geração de cineastas chineses
com trânsito e prestígio fora de seu país.

Censura
O fortalecimento da indústria cinematográfica chinesa face a Hollywood
é sua grande preocupação, diz o cineasta. Maior até que a erradicação
da censura artística, ainda existente no país.
“Para mim, o maior perigo é a indústria de cinema chinesa não
conseguir se fortalecer e um dia ser eliminada pelos EUA”, diz.
Lik-Wai não nega, no entanto, que “de alguma forma”, a censura tenha
influência sobre seu trabalho. “É fato que temos [os artistas] que
tomar cuidado com certos assuntos que abordamos, por serem mais
problemáticos ou sensíveis à censura”, diz. Mas pondera: “Não me
preocupo muito com esse tipo de coisa, porque a censura não acontece
só na China. Está em toda parte. Os Estados Unidos também têm a sua
censura, só que em outros termos. É algo inconsciente, uma espécie de
auto-censura”.

Mercado
Como tudo na China (reconhecida em 2004 pelo governo brasileiro como
uma economia de mercado, o que abriu as portas para as trocas de
comércio bilateral), a indústria de cinema do país asiático é gigante
para os padrões brasileiros, apesar de ser considerada ainda “jovem e
frágil” por Lik-Wai.
A China fechou 2005 com 2.601 filmes produzidos e 38,5 mil salas de
cinema. O produto nacional ocupou 68,5% do mercado interno, que
registrou a venda de 1,43 bilhão de bilhetes. O líder de bilheteria
foi “A Promessa”, de Chen Kaige, que estréia neste mês no Brasil.
Lik-Wai conta que começou a estudar cinema “não muito jovem, aos 25
anos”. Decidiu ser cineasta no momento em que seu “conceito de cinema
mudou”. Mais exatamente, quando percebeu que “um filme pode tocar você
espiritualmente, e não ser apenas entretenimento”. Foi o que ocorreu
com ele ao assistir “Pickpocket” (1959), do francês Robert Bresson
(1907-1999).
Os dois primeiros longas de Lik-Wai, “Love Will Tear Us Apart” (1999)
e “All Tomorrow’s Parties” (2003), foram filmados na China. “All
Tomorrow’s Parties” foi co-produzido pela França.
Embora vá ser inteiramente filmado no Brasil -além de São Paulo,
haverá cenas no Oiapoque (AP)-, “Plastic City” será uma co-produção
internacional. O orçamento, de R$ 5,5 milhões, será cotizado entre
produtores brasileiros -a Gullane Filmes, com 48% dos investimentos-,
asiáticos (40%) e europeus (12%).
Lik-Wai apresentou à Gullane Filmes sugestões de atores para
protagonizar “Plastic City”, curiosamente, um casal de japoneses
-Odagiri Joe, que contracenou com Takeshi Kitano em “Blood and Bones”,
de Yoichi Sai, e a atriz Chiaki Kuriyama, do elenco de “Kill Bill Vol.
1″ (Quentin Tarantino).
Há espaço em “Plastic City” para um ator e uma atriz brasileiros nos
papéis principais, cuja seleção Lik-Wai iniciou. A busca seguirá em
sua próxima vinda à Hong Kong brasileira.

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