ESCRITÓRIO NOTURNOTHE MAJORNECRONAUTA - O ALMANAQUE DOS MORTOSMSP - NOVOS 50

paredes de memória

bateu uma vontade inexplicável de visitar meus tios-avós de São Paulo e arrastei a Flávia lá comigo no fim da tarde de ontem. eu não ia lá há anos e me surpreendi com os prédios gigantes que levantaram em volta da casa deles na Vila Mariana. minha visão perfeita de São Paulo é o interior daquela casa.

apesar de formais como sempre, os tios-avós receberam a gente dum jeito assim caloroso e com sanduíche de queijo quente, refrigerante e torta de palmito [com frango, que deixei de lado quando a Frá me alertou discretamente]. conversamos bastante sobre amenidades e como andam as coisas e as famílias e tal e sinceramente não me senti mal com isso como pensei que ficaria. devo estar mesmo ficando velho.

mas acho que simplesmente fui acometido pelas memórias. passei muito tempo da minha infância ali entre aquelas paredes cheias de fotos, jogando Atari e brincando com bonequinhos mas principalmente lendo gibi, muitos deles, e vendo filmes e séries com o povo. lembro de muita coisa da Manchete porque não tinha esse canal em Santos. esperamos minha mãe chegar do trabalho e fomos na parte posterior da casa, onde há dois anos ela tem morado e de onde está saindo pra entrar na rotina do sobe-e-desce serra no trajeto Santos-São Paulo dos fretados pinga-pinga.

ali em cima era onde morava minha bisavó e pra onde ela nunca mais foi desde o fim do ano passado. a primeira vez em que eu visitava a casa depois que ela morreu em Santos com a gente em Fevereiro, depois de definhar rapidamente por uns meses. tem uma foto lá dela me carregando no colo quando eu era bebê, lá pelos idos do fim dos anos 70. não sei o que vão fazer com essas fotos depois que minha mãe sair, acho que dar pra ela talvez.

a casa toda parecia bem menor pra mim hoje, o muro da casa ao lado até parece que pode ser pulado agora. a memória dos mortos – meu vô Arnaldo, a prima Tata e a bisa Deolinda [nessa ordem eles se foram] – passava pela minha cabeça sem parar, como se nunca tivessem ido embora. acho que eram os 3 mais cabeça-dura da família, não raro estavam no meio de discussões e pequenos desentendimentos. mas nunca faltaram com carinho comigo. sinto muita falta deles agora. numa intensidade que não consigo explicar. sinto falta de mim mesmo, do eu daquela época que ficava encolhido numa poltrona lendo pilhas de gibi.

saindo dali passamos em frente a uma pequena livraria numa rua perto onde comecei a comprar hqs gringas. a imagem é viva demais em mim. ali eu dasabei, não consegui segurar mais. gostaria de poder viajar no tempo e encontrar a mim mesmo, avisar pra ser menos anti-social e aproveitar mais as pessoas enquanto elas estão por perto, pra ser menos fechado na minha bolha, pra ter menos raiva dos outros, pra abraçar mais as pessoas e dizer pra elas o quanto gosto delas.

avisar pra ter menos medo da Vida, medo do Futuro e tentar viver mais o presente. de tanto pensar em como seria o Futuro esqueci de viver um pouco aquele presente. e hoje me vejo numa espécie de realidade “paralela” em que várias coisas evitáveis deram meio errado – não que não possam ser consertadas, mas que demoraram demais pra serem feitas e quebraram no meio do caminho. encaixar e colar os pedaços de volta no Futuro é bem mais difícil do q agir no Presente. só bastava eu não ter medo e fazer.

espero que tenha um ou vários duplos meus em outras realidades que fizeram tudo que não fiz e hoje são mais felizes do que o cara azedo que virei. ou que sempre fui. espero ainda ter bastante tempo pra fazer tudo que deixei de fazer certo. dizem que é melhor amar do que nunca ser amado. eu nunca amei de volta como poderia. ainda dá tempo de fazer isso com quem tá aqui.

porque depois o que resta é só uma parede cheia de fotos.

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