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como ser roteirista de HQ em 15 passos

ou, num título mais modesto, “o que aprendi até agora como roteirista de HQ”.

considero a mim mesmo um iniciante e não sou profissional do meio; já ganhei algum pouco $, mas só vou me considerar pro quando um dia tirar meu sustento [ou a maior parte dele] disso. essa lista de coisas eu gostaria de saber há 10 anos e infelizmente não posso mandar esse post pra mim mesmo no passado.

ela é fruto de dar muito soco em ponta de faca e de frustrações mil. como já cansei de falar, roteirista iniciante é o cocô do cavalo do bandido e é menos valorizado no mercado que letristas – pra estes ao menos há demanda de trabalho. nem estou considerando a realidade brasileira, mas o meio de HQ como um todo, o de fora inclusive. acho que cursos de roteiro – de quadrinhos principalmente – são meio picaretagem, e que a melhor coisa que eu posso dizer pra quem está começando.

isso não é um guia definitivo, são só minhas impressões. é o que aprendi errando. se alguém se ofender por algo escrito aqui, sinto muito, azar. essa é minha opinião pessoal, formada pela minha vivência, na minha realidade. é minha percepção. pode ser errada, mas é o que sei. ou acho que sei.

1. leia livros. não se prenda a ler só HQs, porque assim você vai ter sempre muitas limitações. não precisa ser só prosa [biografias e relatos históricos \ jornalísticos são uma boa] nem só os clássicos – aprenda a discernir o que te dá prazer e vá formando seu gosto descartando coisas. quanto mais você lê, até um certo ponto pelo menos, mais você vai escrever melhor – mesmo que seja imitando os caras no começo. mas ficar só nas HQs é se limitar demais.

2. veja filmes. de todo tipo, de vários gêneros. de novo, não se limite a um gênero, por mais que você ame um determinado tipo de filme. quanto mais filmes você assistir mais vai atiçar seu cérebro pra escrever conforme vai se surpreendendo com os enredos, vendo como os caras encontram soluções e terminam as histórias, e como os diretores conduzem a obra por completo. como roteirista você vai ter de dar direções ao ilustrador. vá descobrindo quais diretores e roteiristas você gosta mais, aprenda os truques deles, imite-os se precisar porque isso pode te ajudar a encontrar sua voz.

3. consuma Moda e Arte. não precisa fazer faculdade de Artes Plásticas ou Desenho de Moda, mas pegue revistas desses meios, folheie [leia ou só veja as figuras, que seja] livros sobre esses assuntos, porque eles vão informar como você contextualiza sua HQ: tanto em termos Históricos [a Moda muda com os tempos] como que tom você quer dar pra cada cena, pra cada conjunto de cenas, pra história completa. isso está interligado com o que falei acima sobre Cinema. teoricamente seu ilustrador deve saber sobre isso também, mas se você já souber é uma mão na roda pra HQ sair boa. você vai ter material, imagens, vídeos, pequenos textos, pra mostrar pro ilustrador como referência.

4. interaja com as pessoas. você não precisa ser a pessoa mais simpática do mundo. não precisa fazer cursos sobre como falar em público. mas em geral quem quer produzir HQ vive demais no seu mundinho, é um estereótipo mais real do que se pensa. faça uma atividade extra que não seja trabalho, casa ou escola\faculdade. saia de casa e veja gente, se possível não fuja de conversar com elas quando preciso [é difícil, eu sei]. é assim que você vai conhecer os diferentes tipos de pessoas e construir personagens. apesar dos padrões que encontramos por aí repetidos ao infinito, cada pessoa é também um ser único com um passado que moldou seu jeito de ser, seu caráter e formas de falar, de agir.

5. tenha curiosidade pelo que está acontecendo. você também não tem que ver\ler todos os jornais e revistas da semana, mas é bom pelo menos ter uma idéia geral do que rola à sua volta; uma passada com regularidade em um site de notícias é o suficiente, mas não se prenda sempre às mesmas fontes de informação. tente ver pontos de vista diferentes e pesquise assuntos gerais ou fatos específicos que despertem o mínimo interesse em você. a internet está aí pra te ajudar, google e wikipedia são seus amigos [mas não precisa virar uma enciclopédia viva, isso serve mais pra Jornalistas]. chega uma hora em que você acumula um determinado volume de informações que até parecem dispersas, mas seu cérebro processa tudo aquilo e de repente você se vê bolando uma história sem perceber.

6. um roteiro de HQ é muito parecido com um de Cinema e TV, e mesmo com peça de Teatro [mas mais com os dois primeiros]. numa simplificação tosca, não tem muito segredo: você marca PÁGINA 1, PAINEL\QUADRINHO 1 e descreve o que quer ver. daí escreve o nome do personagem e o que ele fala naquele painel. e assim vai. há muitos exemplos de roteiros por aí na internet; jogue o nome do seu autor preferido numa busca e digite ’script’ junto que você vai achar exemplos sem fim. claro que essa é a versão ultra-sintética do que é um roteiro.

7. HQ é Arte Sequencial. por mais que existam histórias experimentais, quando se fala em contar uma história se fala sobre uma seqüência de acontecimentos. acontece uma coisa aqui, outra depois e mais uma em seguida. você não precisa contar TUDO que acontece a cada ação dos personagens, mas tem de escolher o que é mais importante ser mostrado pra história que você está contando e desencadear a narração. e HQ é Narrativa Gráfica, é contar uma história com imagens e palavras. que imagens e palavras você vai escolher? não se preocupe em PRECISAR de um narrador, nem em PRECISAR de diálogo. você só vai precisar do que a HQ pedir. saiba quando calar a boca do personagem, até porque você não quer que ele fique escondido atrás do próprio balão de fala.

8. descreva pro ilustrador o que ele precisa saber. parece bem óbvio mas não é. além de dar uma descrição visual do que você quer que seja mostrado na cena, você pode\deve comunicar idéias; não é abstrato: essas idéias são o que vão informar o tom da sua cena. mostre referências visuais não só do cenário ou roupa que você quer. se for preciso mostre referências do tipo de efeito \ emoção que você quer quer a cena passe. isso não é copiar uma foto ou filme, mas comunicar pro ilustrador qual sua intenção. quando essa comunicação falha, o que está no papel desenhado não é o que você tinha imaginado. quando você achar um bom ilustrador e desenvolver uma boa parceria com ele, não vai precisar fazer descrições gigantes porque ele vai entender o que você quer. até lá, saiba comunicar em poucas palavras o que você PRECISA que esteja ali.

9. seja forte, mas flexível. isso vai soar extremamente arrogante, mas você é o Roteirista, você sabe o que é bom pra sua história e como ela deve ser contada. mas você provavelmente não desenha, ou desistiu de desenhar duma vez. acontece que o ilustrador pensa visualmente e pode ter idéias melhores pra um ângulo de “câmera”, ou como uma pose diferente do personagem comunica melhor o que você quer, como um enquadramento diferente ou seqüência de painéis pode ser modificado, mesclado ou suprimido pra que a história seja melhor contada.

saiba ouvir, seja flexível e humilde a ponto de ceder PARA O BEM DA HISTÓRIA. e só nesse caso. porque você não deve ser bobo e deixar o ilustrador contar sua história por você. saiba brigar [no bom sentido] pelo seu ponto de vista se a sugestão não servir pro bem da história. no fim se ela parecer mal contada a culpa vai ser sua.

10. estabeleça prazos para você mesmo e pro ilustrador. estou falando tanto de situações informais [sem nenhum lugar pra publicar a HQ] quanto de outras mais formais [quando alguém oferecer espaço em uma revista ou site, ou mesmo quando você quiser jogar a história na internet sem correria]. isso é muito difícil e fonte de controvérsias, mas cobre a si mesmo pra escrever, estabeleça o hábito de escrever um pouco que seja por dia\semana, sinta tesão por escrever, descubra o prazer de ver um roteiro terminado.

eu sei que é difícil, eu luto contra isso até hoje. mas se você está disposto a se sacrificar por HQ, marque uma data pro ilustrador acabar o trabalho e COBRE ele. porque invariavelmente ele vai furar. ele é humano e não tá ganhando nada pra isso. saiba mais sobre isso no item a seguir.

11. junte-se a quem pensa como você. dá pra ver como estou ficando mais amargo a cada item, né? não é sem motivo. HQ é um puta saco fazer, pro ilustrador mais do que pra qualquer pessoa envolvida. é muito nobre e bonito ser artista plástico, grafiteiro, pintor de quadros, ilustrador editorial, capista etc etc. não estou querendo me gabar, mas nenhum desses caras conta uma história usando recursos de narrativa gráfica. você pode dizer que um quadro conta uma história, mas só se tiver várias vezes o mesmo personagem dentro da mesma tela, ou lendo o release do artista pra saber o conceito por trás da obra.

HQ é repetição, é desenhar o mesmo personagem mil vezes pra contar a maldita história. muita gente pensa que consegue mas não dá conta, porque é muito trabalhoso mesmo. muita gente vai furar com você, e no fim vai ser você que se ferra porque não vai ter nada pra mostrar pra leitores e editores. é tentando, conversando e entrando em furadas que você vai saber quem agüenta o tranco e tá disposto a se sacrificar pra ver uma história pronta. seu ilustrador ideal é o cara que tem as mesmas ambições que você: contar histórias primeiro e viver disso em segundo. porque pra isso tem de ralar muito.

[adendo] 11.5 – tenha vários parceiros, não espere muito por nenhum – essa é importante, quase esqueci. enquanto um ilustrador faz uma página, você pode escrever roteiro pra 5 ou mais até. use a variedade a seu favor: passe cada novo projeto pra uma pessoa diferente ilustrar. assim você não sobrecarrega ninguém, não depende da velocidade e dos contratempos de uma só pessoa e tem mais HQs prontas em menos tempo. todo roteirista tem seu parceiro ideal pelo qual vale a pena esperar, mas até achar ele vai ser enrolado por muitos. portanto se alguém furar vários prazos em seguida, tire educadamente o roteiro da pessoa e arrume outra pra fazer. você é o maior prejudicado pelos atrasos. não precisa ficar com sua vida empacada. ou a pessoa está na mesma freqüência que você ou não está. espere só aquele que vale muito. mas sem muita pena, porque o ilustrador não vai ter de você quando pintar um projeto que dê mais grana e exposição que o seu. é cruel mas é verdade.

12. em último caso, considere pagar um adiantamento pro artista. como demooora [bem mais do que escrever] e é um saco ilustrar páginas sem fim, talvez o cara precise de um incentivo em forma de grana, reembolsável quando\se a HQ render algum. MAS isso tem de ser muito bem combinado e oficializado por escrito. que seja por email, mas um contrato é até melhor. assim o cara vai desenhando sabendo que vai receber algo. nada como a cenoura na frente do coelho. só que isso pode se tornar um vício perigoso. porque veja, você não é publisher, editor, filho de dono de gráfica – você é um roteirista querendo contar sua história. pode acontecer de você só ver arte pronta se o cara receber. isso é um problema pra seguir adiante com a HQ.

o cara tem de entender que é preciso sacrifício da parte dele pra que a HQ esteja num ponto mínimo pra ser mostrado pra um editor. e pra isso pode ter que desenhar de graça um pouco. se ambos são donos dos direitos autorais, é quase uma obrigação do cara entender isso. se os direitos forem só do roteirista daí ferrou-se, na maioria dos casos só pagando mesmo. mas também o ilustrador vai ficar mais sujeito a seus desmandos de déspota. isso tudo é muito subjetivo porque a partir dessa fase muitas outras coisas podem acontecer.

mais um adendo: 12.5. não peça demissão do seu trabalho ainda. vai demorar pra você ganhar dinheiro com HQ, não importa qual seja sua função nela. mas sendo roteirista você vai ser provavelmente o último da equipe a ganhar com isso. não estou fazendo drama. há uma demanda constante por desenhistas, finalistas, coloristas e letristas. demanda essa que podem ser por trabalhos comerciais que rendem uma grana. e quase todo mundo acha que sabe escrever uma história, então “bola qualquer coisa aê, o que vale é o desenho”. realmente, o desenho é o que chama a atenção num primeiro momento; o que vai te segurar na HQ é o roteiro. não espere que a chance de ouro vai cair do céu amanhã ou depois. ou mesmo daqui a uns anos. demora. se você tá na dúvida de aceitar aquela proposta de emprego porque vi ficar sem tempo de fazer roteiros pra dar a reviravolta na sua vida, aceite o emprego. e escreva nas horas vagas. porque esse emprego careta vai te sustentar até você ganhar seus primeiros cheques de editores. de novo: e isso demooooora. mesmo que uma editora gringa queira publicar sua HQ, vai levar de 3 a 4 meses pra você ver a cor do dinheiro por um gibi publicado este mês, devido aos meandros da distribuição lá fora. este ítem parece o discurso do derrotado, mas é apenas a triste voz realista da razão falando.

13. saiba pra qual editor mandar sua HQ e como lidar com rejeição. estou levando em conta principalmente editores gringos, ok? levando em conta que você traduziu seus diálogos ou arrumou alguém pra isso [13. 5 aprenda inglês]. porque a maioria dos editores brasileiros não vai nem responder seus emails. os de fora vivem num mercado que gira mensalmente e faz dinheiro, então querem carne nova sempre.

mas sua hq não serve pra todas as editoras. seu super-herói não serve pra editora que lança dramas emo. sua hq experimental não serve pra editora que lança aventuras baseadas em seriados de TV. saiba pra onde mandar cada proposta, poupe seu tempo e o dos caras. muitos ainda vão te ignorar de qualquer jeito, vários vão rejeitar sem explicações, alguns vão dar dicas de como melhorar [mesmo tendo rejeitado] e umas poucas almas caridosas vão te indicar lugares melhores pra enviar aquilo.

um deles pode querer te publicar, se você mudar uma coisa e outra. saiba aceitar críticas e usar elas pra melhorar. não as veja como ofensas ou inveja. esses são caras querendo faturar e sabem mais do mercado que você. sim, do mercado. mesmo a HQ mais experimental, “autoral” e artística do mundo precisa ser vendida. isso se você quiser fazer carreira como quadrinista. se você quiser fazer disso um hobby de gaveta pare de ler agora. não se desanime com as primeiras rejeições, tem gente que martelou por mais de 5 ou 10 anos até conseguir a primeira publicação profissional.

14. saiba contar a sinopse da sua história em poucas palavras. a maioria dos editores quer saber o começo, o meio e o fim da sua história. cada caso é um caso, mas na maioria das vezes você tem de contar tudo pros caras, em 150 palavras. pois é. isso é porque você um desconhecido e vai ter pouco espaço pra dar seu recado. de começo você vai ter: de 5 a 10 páginas, um one-shot fechado ou no máximo uma mini-série de 3 partes. e lamba-se.

mais que isso só se você for realmente genial e der sorte de falar com a pessoa certa na hora certa, que está naquele momento procurando exatamente o que você tem a oferecer. os editores em geral não querem saber só o que os leitores vão saber na propaganda do primeiro número da revista. eles querem saber como a história vai acabar pra saber que tom sua HQ vai ter e como vender aquele peixe.

não atole o cara de informação em um email gigante, eles têm mil propostas pra ver e outros 10 gibis já aprovados pra editar. conte em um parágrafo tudo que acontece, de forma bem resumida. às vezes 150 palavras é até muito. depende do cara. perguntar antes pra ele o que ele precisa saber da história não ofende. economiza tempo de ambos s lados. às vezes ele só quer uma frase. aí tem de colocar seu poder de síntese à prova.

15. publique sua HQ, publique muitas HQs. mostre pro mundo que você existe como falei acima, sendo roteirista iniciante você tá ferrado. pouquíssimas pessoas têm saco de ler roteiro pra avaliar história. tem de estar desenhada. em 2 minutos um editor avalia se o portifólio do ilustrador é bom e se vale oferecer trabalho pra ele. no seu caso tem de ter hq publicada pra ele ler. quanto mais, melhor [mas claro que você vai selecionar de preferência o trabalho melhor\mais recente pra mostrar] e quanto mais moral a publicação tiver, mais seu nome é valorizado. mas não tendo onde publicar, crie seu próprio meio.

se enfie nas coletâneas que conseguir, é um ótimo jeito de começar e sentir como rolam as coisas. pague do bolso uma pequena tiragem em gráfica por demanda pra ter um gibi na mão. crie até um nome de editora fictícia se precisar, mas mostre que publicou algo. e publique na internet. sites de webcomics há vários por aí. se não conseguir entrar em nenhum, abra um blog gratuito e publique a hq lá. e espalhe o link pra deus e o mundo. entre em fóruns em que os autores e editores circulem, faça uma social. saiba também a diferença entre ser chato e apenas insistente. mas use a internet a seu favor. todos os contatos estão aí pra quem quiser pegar, é só se esforçar.

esqueça o que os velhos [de idade real ou mental] dizem sobre a internet: ela é a melhor coisa que aconteceu pras HQs nos últimos tempos. publique na internet, é o jeito mais fácil de mostrar seu trabalho pro mundo. um link é mais fácil e barato de ser passado adiante que uma revista de papel. escreva sempre, publique sempre.

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2 Responses to “como ser roteirista de HQ em 15 passos”

  1. Adrian Rodrigues says:

    Super interessante, eu mesmo tenho problemas com desenhistas, e nenhum trabalho meu ainda não saiu. mas isso mostra uma boa realidade de tentativa que e a vida de um roterista.

  2. Adrian Rodrigues says:

    roteirista*


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