ESCRITÓRIO NOTURNOTHE MAJORNECRONAUTA - O ALMANAQUE DOS MORTOSMSP - NOVOS 50

“Rúcula-gate” e a paz pela comida

colei o txt todo pq a Folha bloqueia só pra assinantes.

por Sérgio Dávila, de Washington

Comer é um ato político, como experimentou na carne (perdão pelo primeiro trocadilho) o bispo Sardinha, ao ser devorado pelos índios caetés, em 16 de junho de 1556. No ano passado, em pleno começo de campanha pela indicação do Partido Democrata, Barack Obama perguntou numa feira no Iowa: “Alguém foi recentemente ao Whole Foods e viu o preço que eles cobram pela rúcula?”

A frase foi dita num dos Estados-símbolos do chamado “cinturão do milho” norte-americano. O candidato sugeria que os agricultores locais diversificassem a monocultura e investissem em plantas pelas quais poderiam cobrar mais. Desde então, a afirmação tem sido usada por diferentes oponentes para demonstrar como o democrata é elitista e não está em contato com a realidade do povo.

“Tive de procurar no Google o que era rúcula!”, bradou há poucos dias Jed Babbin, subsecretário de Defesa de Bush pai (1989-1993), hoje presidente do grupo ultraconservador Human Events. Você é o que você come, defendem John McCain e seus asseclas republicanos, e Obama é o homem errado, porque come os produtos errados, no lugar errado -o Whole Foods é de classe média alta.

Rúcula? O americano de raiz (perdão pelo segundo trocadilho) come alface, e olhe lá. De preferência acompanhada de hambúrguer de bisão ou alce. Cru. Obama não é a primeira vítima do que ficou conhecido como “rúcula-gate”. Antes dele, Michael Dukakis também foi acusado de elitismo vegetal. Em 1987, no mesmo Iowa, o então candidato democrata sugeriu que (provavelmente) os mesmos agricultores diversificassem sua produção plantando endívias. Perdeu de lavada para Bush pai.

A diferença entre 1987 e 2008 é que os conscientes alimentares deixaram de ser uma minoria. Se há duas décadas ser vegetariano era tão exótico nesse país quanto ser negro e concorrer à presidência, agora a preocupação com a comida é tão bem-vista quanto a ambiental, até porque ambas andam de mãos dadas. Nos supermercados, cresce o número de produtos anunciados como “locais”, que gastaram pouco combustível fóssil para chegar à mesa do consumidor, chamado de “localvoro”.

As editoras pegam carona no debate político-gastronômico. Quatro anos depois de “How to Eat Like a Republican” (”Como Comer como um Republicano”, Villard), é a vez de “Cuisines of the Axis of Evil and Other Irritating States – A Dinner Party Approach to International Relations” (”Culinárias do Eixo do Mal e Outros Estados Irritantes – Um Olhar nas Relações Internacionais pela Mesa do Jantar”, Lyons Press).

Se a obra de 2004 vinha na esteira da segunda vitória de Bush filho e no que Karl Rove sonhava ser o começo da maioria permanente republicana, a de agora pega emprestada a expressão com a qual o presidente reuniu Irã, Iraque e Coréia do Norte no mesmo pacote, o de países que, em 2002, ele acusava de patrocinarem o terrorismo, para examinar o que a autora chama de culinária política.

Um prato nacional diz muito sobre a política externa de um país, defende Chris Fair. O de Israel, por exemplo, é o falafel, o bolinho frito de grão-de-bico, “uma maneira de eles dizerem ‘Nós temos participação num prato tipicamente árabe’”. Ela viajou para ou pesquisou sobre dez países que não mantêm exatamente boas relações com os EUA, entre eles Cuba e Mianmar.

Chegou à conclusão de que o entendimento mundial passa pela cozinha. Com rúcula ou não.

Posts Recentes | Recent Posts:


Comments are closed.


RECOMENDADOS: