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A Vida de Rafinha Bastos – a nova série dramática do canal FX sobre a tristeza do palhaço

uma vez assisti a um stand-up de Rafinha na promoção de uma marca. após alguns sorrisos amarelos voltei pra casa achando que o Humor havia morrido, triste. e que o comediante gaúcho não ia descansar enquanto não tentasse fazer uma versão brasileira de SEINFELD. corta pra 2012 e ele tentou mesmo. mas não conseguiu, apenas criou mais um canal para espalhar sua tristeza através da energia negativa da voz sintonizada na freqüência do ódio.

no último sábado a versão brasileira do canal a cabo FX exibiu a pré-estréia de A VIDA DE RAFINHA BASTOS, drama de uma hora de duração que ficcionaliza o cotidiano do comediante que saiu do programa CQC na Band e hoje comanda a versão licenciada de SATURDAY NIGHT LIVE na RedeTV.

AVDRB [que também poderia ser "a vida rebelde"] poderia lembrar uma versão licenciada de outro humorístico: a genial sitcom CURB YOUR ENTHUSIASM do comediante norte-americano Larry David, que também apresenta uma versão fictícia e hiper-realista da vida do co-criador do marco televisivo SEINFELD. mas estamos diante de um piloto que não faz rir, apenas sentir pena do protagonista e suas agruras. spoilers daqui em diante:

o seriado quer ser uma sessão de auto-análise e faz do espectador o psicólogo ao mostrar o comediante em um momento delicado de sua carreira e vida pessoal. não vemos referência ao CQC, mas aos seus shows de stand-up e DVD no Clube Comedians, do qual ele é sócio, e às gravações do mesmo. Rafinha acumula processos por piadas ofensivas, o que é tão rotineiro que o faz receber um oficial de Justiça em casa como quem recebe um corretor.

sua esposa Junia (Camila Raffanti) está cansada de tanta pressão da mídia, da Justiça, e de ver a mãe ter crises de pressão alta toda vez que o nome do genro aparece nos jornais por conta de algum escândalo. ela recebe uma proposta dúbia de um diretor teatral pra cuidar da cenografia de um novo projeto na Suécia e fica dividida entre seguir a carreira ou ficar no Brasil e continuar as tentativas frustradas do marido de engravidá-la.

Rafinha quer, através das conversas dos comediantes nas horas de descanso em seu clube, discutir o processo por trás da construção de um texto para stand-up [lá fora chamado de "rotina", aqui de "piada" mesmo]. ele justificar como de costume sua sem-gracice com o velho argumento da opressão do Politicamente Correto, invocando o direto à Liberdade de Expressão para mascarar seu preconceito vomitado e vendido como Humor. e o “rei” desafia os amigos-funcionários a um roast-relâmpago para que tentem ofendê-lo na tentativa de provar que piadas devem ser engraçadas, não importa a quem ofendam. e ele segue rindo de tudo, até que pegam no nervo exposto da frustração por não ter filho – igualando sua situação a uma suposta impotência, fraqueza e humilhação máxima para um macho-alfa gaúcho, só não pior que a homossexualidade [como veremos adiante].

e, logo de cara após uma apresentação, uma mulher da platéia vem conversar e descreve com detalhes mórbidos a ocasião em que foi estuprada. a cena, quase surreal em seu tom grotesco, serve como versão aterrorizante do “chamado do herói”, mas aqui como maldição de filme de Horror, um mal presságio da provação pela qual o personagem terá que passar.

em uma dramatização de um evento real, aqui hiper-real, Rafinha vai ao talk-show de Marília Gabriela, sob recomendação da amiga-agente para “não falar merda” e tentar limpar a imagem. quando ele é pressionado pela apresentadora a não amarelar e contar novamente a piada do estupro, Rafinha não quer se mostrar covarde: diz que a piada do estupro era ruim e conta uma pior ainda [não ouvimos do que se trata].

a gota d’água para sua esposa, que o faz sair de casa e considerar a proposta do seboso diretor teatral – que por usar sapatênis é tratado como um coxinha em contraponto ao descolado Rafinha e sua tatuagem tribal no braço, quase sempre visível. ao andar de carro sob uma trilha triste, as luzes de São Paulo estão desfocadas para ele, refletindo sua falta de foco. o comediante é acolhido na casa do amigo e mentor, o lutador de MMA Minotauro, lacônico, sábio e ao mesmo tempo ameaçador e infantilizado. ao recebê-lo, o lutador diz que “no Jiu-jistu mental, você foi fraco”. todos os odeiam, e ele só consegue ser contratado para subir ao palco diante de uma platéia de neonazistas.

os golpes seguem fortes para o comediante: ele tenta amansar seu texto e se desculpar a cada piada, mas suas apresentações automaticamente ficam sem graça e se esvaziam. ele é um fraco, um frouxo, o oposto do varão corajoso de antes. um dos comediantes do seu clube, o crossdresser Gilmar (André Frateschi), discute com Rafinha por não poder usar o banheiro feminino – em uma alusão direta ao caso do cartunista Laerte – e Bastos acaba cedendo, afrouxando [mas não muito, afinal macho não pode afrouxar pra viado] e deixa Gilmar usar seu banheiro privativo para dispensar o problema.

o soco mais forte é quando Rafinha tenta se consultar com um comediante falido, que nos anos 70 era tão transgressor quanto ele, uma espécie de Lenny Bruce brasileiro, hoje relegado a uma casa pobre e se masturbando ao lado da mulher catatônica após um derrame. Rafinha está diante de um possível futuro, uma versão alternativa e negativa de si mesmo se continuar no caminho atual. a auto-análise está no ápice, ou fundo do poço. Rafinha quer se mostrar humano, quer se redimir, quer se entender, que que o mundo o entenda como ser humano mas aceitá-lo como comediante agressivo. só faltou o choro, como na versão real do programa de Gabi.

o plano para reconquistar a mulher, agora decidida a ir para o exterior com o diretor seboso-coxinha-intelectualóide, depende de Rafinha tentar “ser fofo”, e grava um DVD brega [fraco, frouxo] com seus melhores momentos. após uma confusão com os discos, Junia assiste ao DVD certo já no avião, mas só depois de um soco desferido por Minotauro, que a acorda de um sono induzido por calmantes. Rafinha a reconquista e ela engravida, devolvendo ao comediante sua virilidade e o direito de repetir a piada do “comer ela e o bebê”. agora consigo mesmo, para reforçar que se ele aguenta piada todos deveriam aguentar.

porque quem não aguentar é frouxo, fraco, viadinho, pau mole, histérico que nem mulher – coisa que o macho Rafinha não pode ser nunca. porque se for vai desonrar seu pai, seu maior medo [e motivo do choro na entrevista real com Gabi]. porque se for vai se igualar às mulheres – aquelas que segundo eles caso sejam feias estarão ganhando um presente se por acaso vierem a ser estupradas. afinal o pau duro é o cetro divino que traz o poder, a ordem e a justiça pra Humanidade. perdê-lo é o vazio existencial maior apresentado no entristecido piloto da nova série do FX. antes a produção tivesse filmado esse roteiro sugerido por Vinicius Perez, que realizaria o desejo de Rafinha de se auto-analisar enquanto se zoa, mas sem espalhar mais ainda sua bad vibe reacionária destrutiva.


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7 Responses to “A Vida de Rafinha Bastos – a nova série dramática do canal FX sobre a tristeza do palhaço”

  1. Daniela says:

    Simplesmente não concordo.

  2. Roberta says:

    Ainda não me recuperei da crise de riso com a primeira frase “voltei pra casa achando que o Humor havia morrido”. Muito bom, é isso, esse pânico de parecer mulher tá afetando até as mulheres. Humor que deixa a gente triste. Triste.

  3. Grazzy says:

    Parabéns por ter aguentado assistir a essa porcaria até o final para conseguir criticar. Não aguentei nem cinco minutos escovando os dentes!

  4. hectorlima says:

    Daniela – tudo bem.

    Roberta – infelizmente foi por aí que me senti; eu tinha esperança no stand-up brasileiro, e tem um e outro bom, mas em geral parece que serve pra espalhar preconceito e conceitos ruins.

    Grazzy – eu juro que vi na mínima esperança de ser bom, por mais que não goste do cara. queria ver o que ele fez com o que absorveu das séries gringas, mas parece que não processou muito bem.

    • Grazzy says:

      Um cara desses não acredita que possa absorver nada de ninguém, afinal, ele ” se acha”! Me surpreendi em saber que a FX produziu uma coisa dessas; pelo possível potencial polêmico, provavelmente – fail. Miserably.

  5. Rony says:

    Meu Deus! Nem vou falar do Rafael, assunto que nao me interessa. Li sua “critìca” e a ùnica coisa que me passa pela cabeça è:
    Como alguèm que escreve portugues tao mal pode ser ‘critico’ de alguma coisa? Voce começa as frases na primeira e termina na terceira pessoa, começa a frase no infinitivo e termina no gerundio… começa com uma linha de pensamento e depois vai pra outra assim, sem a minima relaçao entre os argumentos (a nao ser o argumento geral, que è Rafinha)… Cara, se voce realmente è critico de algumas dessas coisas que disse aì, entao estamos mesmo no fim dos tempos!

    PS: Desculpe a falta de acentos… meu teclado nao tem acentos da lingua portuguesa.

    • hectorlima says:

      não sou crítico de nada, são impressões pessoais em um blog pessoal – escrito de forma solta e sem preocupação alguma com forma e correção. apesar que vou reler pra ver se tem esses erros aí. e se tiver agradeço por apontar.

      não se preocupe que meu texto não vai trazer o fim dos tempos, mas essa raiva aí com certeza vai ajudar.


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